Entrevista: Jorge Sabongi

Palavras constroem uma imagem.
Realizações constroem uma biografia. Johnnie Walker

Revista Shimmie: Para começar, nos fale um pouco de seu livro: o que vamos encontrar nele, como foi a criação, quanto tempo levou…

Jorge Sabongi: Costumo responder a todos que me perguntam que este livro foi escrito em 45 dias, mas utilizando experiência de 30 anos na Casa de Chá com shows, bailarinas e os mais diversos tipos de público. Começou de uma brincadeira com o meu filho Yanni, todos os dias eu passava um tema para redação, no intuito de melhorar a intimidade dele com a Língua Portuguesa, para que incrementasse o vocabulário e ampliasse as formas de pensar. Em contrapartida, ele me pediu que, ao seu lado, eu o acompanhasse e também escrevesse. Então sentamos cada um com seu computador, lado a lado. Sentei e escrevi: “14 de julho de 2010 – Livro de Direção e Preparação Artística”. Aí começou tudo! E ele nem percebeu. Notava que eu escrevia muito e muito rápido, mas só foi saber que era um livro em meados de setembro, quando já estava na gráfica, pronto para imprimir. Ficou boquiaberto: “Pai, você escreveu um livro?” Agora brinco com ele que, quando sentarmos para ele fazer mais redações, vou escrever outro (rs..). Débora tem também uma participação bastante importante como coautora. Sua contribuição foi fundamental para se ter a visão da professora/bailarina. Ela acompanhou cada capítulo, escreveu, deu sugestões, e utilizou sua vasta experiência com espetáculos, antes da Khan el Khalili, quando trabalhava em teatro, com ópera, ballet clássico e organização de eventos imensos envolvendo orquestras. Mesclando o conhecimento de ambos, chegamos ao resultado final. A ideia deste livro é que seja um projeto para os próximos 30, 40 anos no estudo e no desenvolvimento da dança árabe. Não é um livro para ser digerido em 2 dias, ele foi programado para o leitor encontrar coisas novas a cada momento. Um capítulo complementa o outro, criando um vasto contexto de informações. Se você ler mais de uma vez, perceberá que muita coisa passou despercebida na primeira leitura. Procuramos agregar informações que vão ajudar não só as aprendizes, mas também as professoras, bailarinas e qualquer tipo de artista. Envolve diretrizes para trabalhar a emoção desde o início do aprendizado em sala de aula, e não apenas a técnica e a estética. Além disso, estimula a criatividade, o imaginário, o autoconhecimento, as formas de lidar com os bloqueios, o improviso, as relações interpessoais, o comportamento de bastidores e vários outros aspectos que vão facilitar sobremaneira uma carreira.

RS: O livro fala também sobre metodologia de ensino?

Jorge: Sim, o capítulo 18 foi inteiramente escrito pela Débora (Direção para Professoras). Fala sobre como dirigir a aula e das diversas condições psicológicas a serem observadas por quem orienta. Estimula o desenvolvimento das relações interpessoais e aborda as dificuldades tanto de professoras quanto de alunas oferecendo uma série de ideias que permitam a comunicação mais saudável, não apenas na sala de aula, mas na vida em geral. O livro visa a agregar informações, constituindo um vocabulário profissional, que, ainda hoje engatinha em nosso mercado. Direciona também diversas questões relativas a fantasmas e medos, ilusões desvairadas, personalidade, bloqueios, carisma, egos inflamados e influências nocivas de diversas espécies que inibem e deturpam o aparecimento de excelentes mentoras. Eu diria que se ensina muita técnica e fica esquecido o direcionamento que traduza para o artista mecanismos emocionais para ele trabalhar equilibradamente nos próximos anos. Neste sentido, o livro menciona a carência de uma metodologia que possa gerar diversos métodos que sirvam para qualquer lugar, qualquer país. Não adianta só ser uma professora que ensina movimentos iniciantes, intermediários e avançados. Isso simplesmente não adianta. O que conta é o que você realmente ensina de vivência e ética para que as pessoas aprendam lidar, de forma pacífica, umas com as outras, sem se corromper ou corromper o mercado com o passar dos meses. É nítido que a dança oriental está atualmente atrás de mentoras e não só de professoras. Esta foi uma das grandes questões trazidas pelo livro: falar sobre “atitudes” de sala de aula que irão refletir futuramente, alicerçar uma metodologia que necessita de estrutura, trabalhando os estímulos emocionais, a imaginação, a concentração, a calibragem, enfim todo processo que mexe internamente com cada mulher e principalmente no elemento final: estar em cena. O improviso, por exemplo, que, para muitas, é uma questão desagradável por valorizarem mais o erro e não o estímulo à audição seletiva e à sintonia fina, ajuda não apenas a estimular mecanismos e produzir insights, mas também a trazer à tona, com o passar do tempo, o estilo pessoal de cada uma. Bailarina que está acostumada a improvisar, diferente daquela se só aprende coreografias, está sempre tranquila em cena, pois, além de se sentir segura daquilo que faz, é criativa, livre, tem imenso prazer em dançar. Observe a dificuldade na expressão de tantas bailarinas quando estão dançando: sua expressão, muitas vezes, não diz nada, pois seu pensamento está focado apenas na técnica e em “qual passo vou usar agora”? Esse contexto começa a mudar a partir de agora. Não é o exibicionismo que conta, mas sim a tranquilidade emocional que ela apresenta quando executa uma dança, visível em sua expressão facial.

RS: A Casa de Chá continua com as aulas não é?

Jorge: Nosso foco principal é e sempre foi a Casa de Chá, atendendo ao público que nos prestigia há várias gerações. Mas não podemos negar que todas as mulheres que assistem à dança na Khan el Khalili sentem vontade de dançar também… e bem. Se temos a possibilidade de ensinar isso com qualidade e, ainda por cima, agregar valores ao mercado, por que deveríamos somente nos ater aos shows? Foi através da Casa de Chá que a dança saiu do casulo da colônia árabe e se popularizou para os brasileiros. Então podemos ensinar aquilo que sabemos de melhor, sem esconder nada de ninguém. Poderíamos ter dezenas de professoras ministrando aulas por lá, pois existe coerência no trabalho, prova disso é que estamos há tanto tempo administrando esta empresa no mercado. Mas esta não é a intenção. Na KK, Débora atualmente ministra as aulas com Camilla Martini. Atualmente temos aulas, como também indicamos bailarinas de todo o Brasil para que as pessoas tenham contato a fim de se dedicar ao aprendizado da dança. Desde que Débora chegou do Maranhão, desenvolvemos juntos uma estrutura diferente, arrojada e extremamente ética visando aos próximos anos da dança. Ampliamos a possibilidade de melhorar ainda mais o aprendizado, com experiências como o “Clã” que estava engavetado há mais de uma década na KK. Estas experiências deram tão certo que decidimos compartilhar com todos agora em nosso livro. Outra experiência bastante interessante diz respeito aos diversos perfis de mulheres que fazem aulas. Não existem apenas aquelas que querem ser bailarinas profissionais. Têm aquelas que querem aprender por hobby, outras por terapia, outras, ainda, pura e simplesmente para se sentirem mais belas para elas mesmas diante do espelho. Não podemos nos esquecer que tem também o perfil daquelas que acham que vão aprender em 15 dias para dançar para o parceiro. O que deturpa o aprendizado é exatamente este conflito de interesses dentro da sala de aula. A professora se desdobra para ensinar todas ao mesmo tempo, sendo que uma quer ser corrigida o tempo todo, outras querem apenas se mover de forma bela, e algumas querem desenvolver apenas coreografias. No meio de tudo isso, entra uma aluna nova por semana na turma, começando do zero. Pronto! Muitas vezes, a didática está completamente fora da temperatura ideal para envolvimento das alunas. E isso é um dos motivos da grande rotatividade em sala de aula. Quem consegue lidar com tudo isso de forma tranquila e ensinar coerentemente? Minha sugestão é que as que desejam se profissionalizar façam aula isoladamente dos demais perfis mencionados, de duas a três vezes por semana, por diversas razões mencionadas no livro, mas principalmente pelo seu objetivo específico.

RS: Vemos que, atualmente, a profissional de dança coloca toda a carga nela: ela é bailarina, professora, coreógrafa, psicóloga… você não acha que o ideal seria um trabalho conjunto para que isso aconteça?

Jorge: É difícil agregar diversas funções numa única pessoa. Não apenas no mundo da dança, mas em qualquer área de trabalho. Acredito que atacar por várias frentes é uma utopia neste mercado. Existe um extenso processo de desenvolvimento de relações pessoais ainda a ser desenvolvido para que isso se torne uma realidade. Temos duas vertentes bastante definidas: bailarina e professora. São duas atribuições e dois dons diferentes. Nem sempre uma boa bailarina é uma boa professora e vice-versa. Existem professoras que são excelentes coreógrafas, possuem visão de palco, dinâmica, contexto, criatividade e unificação de grupos e muitas outras qualidades para elaborar momentos diferenciados e especiais em cena. Psicologia é uma ciência que todo ser humano deveria estudar, principalmente por quem ministra aulas, seja do que for. Pelo que percebo, nem todas possuem o esmero em procurar se desenvolver suas habilidades latentes nas diversas áreas. Daí a unir ainda o dom da direção, realmente torna-se um trabalho que requer extrema dedicação e extensa leitura. É necessário muito estudo de psicologia, sociologia, antropologia, técnicas cênicas, conhecimento de mercado, história, geografia, marketing… a maioria nem sabe quantos são os países árabes e onde eles se localizam… mas ela é professora, ela se tornou professora. Mas ela aprendeu o que para ser professora? Professores são mentores, são pessoas que não deveriam falar muito, pois, o pouco que falam já agregam muito. Então, a questão é a responsabilidade de saber qual é a sua posição, o que você quer abraçar com amor e carinho. Mas, o que vemos, é todo mundo fazendo tudo, sem qualquer cuidado ou critério e, por consequência, desvirtuam o mercado. Há pessoas que entram nessa empreitada de forma séria e com boa vontade, porém acabam sendo prejudicadas. Isso acarreta o desaparecimento de pessoas interessantes, que poderiam ser mentoras, porque preferem se afastar, pois percebem que, muitas vezes, o que existe é um antro de fofocas, de ti-ti-ti, de “achismo”, de pessoas querendo puxar o tapete das outras,…e o que sobra? A pessoa desiste.

RS: Existem pouquíssimos livros em português sobre Dança do Ventre. A internet se tornou um fonte de pesquisa. Fale um pouco sobre isso.

Jorge: Hoje em dia, é necessário um crivo muito apurado para não sair acreditando em tudo. Posso afirmar que, dentre 20 sites, você pode usar somente um para informações interessantes e fidedignas, sem ser a cópia da cópia. No caso do nosso site, tudo é baseado em conhecimento cultural comprovado. Os artigos são elaborados no intuito de proporcionar às pessoas um embasamento para fazerem o próprio trabalho, sejam elas professoras, alunas, bailarinas, e, principalmente, amantes da arte. Em termos de literatura é difícil encontrar coisas boas. O problema é que as pessoas se prendem muito a questões históricas ou coisas que todo mundo já sabe: de onde veio a dança, quais os instrumentos usados na dança, danças folclóricas, os benefícios etc. Então fica muito restrito e dificilmente alguém pensa: vamos criar algo único, um sistema para ser ompartilhado por todos… infelizmente, não existe essa mentalidade. O que existe são algumas ações pontuais usadas em benefício próprio, de autopromoção, cuja intenção é única e exclusivamente puxar a glória para si. Costumo dizer que a glória é da Arte. Daqui a pouco não existirá mais nada disso que tem hoje, o que restará? A arte, os benefícios, os elos criados. Temos que primar em fazer algo em benefício de todos. Eu diria que, em termos de mercado, existiram três “ondas” que realmente alavancaram o mercado da dança: a abertura da Khan el Khalili, que popularizou a dança; os vídeos didáticos, lançados por volta de 2001; e este livro de direção, que é uma tentativa de contribuir em termos de metodologia e fazer com que várias pessoas sigam um mesmo caminho, com o mesmo objetivo: dignificar a arte que se determinaram em desenvolver.
RS: A mídia você acha que atrapalha em alguns casos?

Jorge: Para estar diante da mídia é necessário ter estrutura. Não apenas isso, deve-se ter noção exata do que se fala, que aquilo que você está tentando comunicar seja perfeitamente compreendido. Acima de tudo, é necessário ter “atitude”. Se queremos que a dança árabe conquiste o respeito na mídia e no dia a dia, é fundamental que saibamos exatamente o que estamos fazendo. A mídia não serve só para você buscar seus 15 minutos de fama. Um passo em falso e você colocar a perder anos de trabalho esmerado. Já tivemos oportunidade de ir a diversos programas de peso na TV, os quais eu recusei e continuo recusando quando verifico a pauta. Mesmo sendo bastante seletivos, corremos riscos, pois a mídia dificilmente respeita a dança do ventre. Esse é um panorama que precisamos mudar, mas só vai acontecer a hora que houver uma conscientização dos que integram este mercado de que mostrar “arte” não é primar pelo exibicionismo e pela caricatura. Muitas vezes eu já levei minha equipe embora durante filmagens de programas de televisão, pois tinha percebido que aquilo não ia acrescentar nada para a Casa de Chá e muito menos para a Arte. É uma questão de escolha. A Casa é muito visada, por consequência, as bailarinas da Casa são muito visadas, pois conquistaram esta posição, então tem que tomar muito cuidado onde aparecer, como aparecer.

RS: Jorge, nos fale sobre a criação e funcionamento das “Noites no Harém” e das “Super Noites do Harém”? (show apresentado através de coreografias e solos com as bailarinas Noites do Harém)

Jorge: As Noites no Harém na Casa de Chá são apresentações em que as bailarinas dançam músicas 8, 10 e até 12 minutos. Então elas têm que ter repertório de movimentos, tranquilidade e equilíbrio, presença cênica, domínio, emoção e, principalmente, capacidade de improvisação. Tudo isso tem que fluir num conjunto harmonioso. Para as Super Noites no Harém (Teatro), elas têm a liberdade de criar apresentações em grupos, o que denota, muitas vezes, um trabalho em equipe fabuloso. No começo, tínhamos dificuldades para o trabalho em grupo, pois cada uma tem o seu estilo, seu jeito, seu tempo. A ideia das Super Noites não é fazer uma réplica das Noites do Harém. Escolhemos, em média, 6 solistas, aquelas que se destacaram durante o ano, para que possam mostrar a um público bem maior seu brilho pessoal.

RS: Como você analisa hoje o público de dança do ventre?

Jorge: Para entender o público é necessário que compreendamos como flui a informação na mente dele. Como se processa o emocional das pessoas enquanto nos assistem? Que tipo de comportamento de cena devemos assumir? Como não perder a estrutura diante dos mais variados públicos? Este é um assunto bastante interessante que desenvolvemos no capítulo 15 do livro, e que realmente vai mexer com muita gente. Eu diria que estamos num processo de “ensinar o público a assistir à dança do ventre
como arte”. Nesse andamento, temos que saber que existem pessoas que têm dificuldades em lidar com as emoções e, por isso, preferem apenas momentos frenéticos e muito agito. Quando ouvem uma música poética, já dizem “tira isso, to quase dormindo” ou “coloca alguma coisa mais agitada, vai!”. Pessoas assim ainda não têm capacidade de observar algo artístico e vivenciar momentos mágicos. No capítulo mencionado, criamos uma pirâmide do público, para exemplificar. É preciso sempre lembrar que arte é poesia.

RS: Você fala muito de marketing, mas nós vemos um distanciamento seu das redes sociais. No passado, houve problemas no Fórum, com discussões acirradas, principalmente acerca do assunto pré-seleção. Foi prejudicial para vocês?

Jorge: Trabalhamos na Khan El Khalili para agradar a um público fiel há quase três décadas. Nosso trabalho com a dança do ventre é procurar agregar cada vez mais conhecimentos para todos aqueles que estiverem dispostos a aprender e a compreender como funciona realmente o mercado. Pessoalmente não acredito muito em redes sociais. Acho que se perde muito tempo administrando estas redes sociais. Você acaba não vivendo realmente a sua vida, fica preso a internet. Nós decidimos que temos a nossa vida particular, nosso momento de cuidarmos de outros assuntos (família, amigos etc.). Somos felizes assim! Nosso objetivo na Khan el Khalili é fazer um trabalho digno, centrado, direcionado, que, de preferência, todos os envolvidos colham os frutos disso. Respeitando a dança automaticamente respeitamos aos amantes da arte e, por tabela, rechaçamos os que a vulgarizam a todo momento.

RS: Aproveitando, como funciona a avaliação na Pré-Seleção?

Jorge: Na Pré-Seleção avaliamos uma média de 30 itens (já atualizando para 2011). Dividem-se em técnica (50%), cênica (42%) e estética (7%). As notas de maior relevância têm peso 2, 3 ou 4. A cada ano agregamos novos tópicos para serem analisados. A Pré é, sem dúvida, a melhor ferramenta para o desenvolvimento de bailarinas que desejam se apresentar profissionalmente e também para aquelas que realmente querem um Certificado de Padrão de Qualidade. O mais interessante é que ninguém concorre com ninguém. Todas têm chances iguais e, dificilmente, poderão ter uma avaliação tão precisa daquilo que realizam na dança.

RS: Como é feito o critério de escolha da banca?

Jorge: A banca é formada por todas as bailarinas Noites do Harém. Claro que é difícil ter todas presentes nos dias do exame, mas tentamos marcar as datas de acordo com a coerência das agendas de cada uma delas. Tanto a banca como as bailarinas que participam do exame da Pré são orientadas sobre como devem proceder. Para a banca, é necessário todo um preparo: explico item por item, para que elas sejam justas. Por exemplo, quando você vê uma bailarina improvisando, você não pode querer
que ela acerte 100% da música. O mais importante é que ela demonstre que tem ouvido apurado para perceber as nuances musicais e lidar com elas com maestria.

RS: Como você responde às criticas, principalmente no que diz respeito à exigência de um padrão estético na Casa de Chá?

Jorge: A minha função é de um diretor não só da empresa, mas de um agente de alinhamento profissional. Procuro harmonizar aquilo que o público deseja assistir. Ao longo de tantos anos, diante de tanta gente, adquiri a sensibilidade de perceber aquilo que o público quer ver. Existe um gosto muito peculiar no que diz respeito à fantasia presente no inconsciente coletivo quando o assunto é dança do ventre. As pessoas querem sonhar. Minha função é proporcionar-lhes o sonho, caso contrário elas não retornam e não divulgam a Casa. É um trabalho focado. Qualquer diretor tem que ter pulso para escolher aquilo que ele quer para seu empreendimento. Não é um trabalho filantrópico. É um trabalho profissional, que envolve pessoas gastando dinheiro, exigindo qualidade. Nesse sentido, não posso me dar ao luxo de não prestar atenção ao que o público quer assistir. Hoje em dia, eles querem emoção, técnica e estética. E é exatamente isso que oferecemos.

DÉBORA SABONGI,

Revista Shimmie: Qual é o foco da escola de dança do ventre Khan el Khalili hoje?

Débora Sabongi: Bom, nós temos dois focos: o de preparação profissional e outro, para as pessoas que fazem a dança por prazer ou hobby. Nós não temos a pretensão de ter um número grande de alunas, de professoras. Tudo tem que ter administração. Se crescer, você tem que chamar mais pessoas para ajudar e eu prefiro estar no controle desta parte. Somos duas professoras (Débora Sabongi e Camila Martini) e eu gosto assim, pois falamos a mesma língua. Quando eu digo controle, não é dar aula do meu jeito. Cada professora tem um jeito, mas todas têm que falar a mesma linguagem, pois estamos na mesma escola. Acho que isso falta um pouco no mercado.

Tem caso também de aluna que está comigo, depois vai para a turma da Camila… por quê? Porque se identificou mais com o trabalho dela, com a energia dela. E o contrário também é verdadeiro. Daí é necessário o equilíbrio emocional para lidar com estas coisas, para não ficar, dentro da mesma escola, dizendo que a colega roubou sua aluna! Uma coisa que eu tento quebrar um pouco é essa coisa da “propriedade”.

De qualquer forma, essas construções foram feitas a partir de anos de trabalho. Sou formada em ballet clássico, só trabalhava com isso, foi quando infelizmente (ou felizmente!) tive problemas no joelho e no pé, e tive que abandonar o ballet, ficando só com a dança do ventre. Mas eu fiquei muito preocupada com a minha cabeça, a parte mental, e fui estudar psicologia e também fui muito observadora. Vi que nesse meio tem muita vaidade, competitividade e cheguei a largar a dança.

RS: Como você vê a questão da concorrência entre as escolas de dança?

Débora: Particularmente, eu não vejo as outras escolas como concorrentes, mas isso já é um conceito que eu trago desde criança, de nunca concorrer com ninguém. Eu penso assim: tem uma vaga, se eu for boa o suficiente, essa vaga vai ser minha, simples assim; um valor passado pela minha mãe. Eu acho que você não pode ser cego, fechar os olhos para o que acontece à sua volta, mas também não pode trabalhar em função disso. Não dá para eu ficar pendurada na janela olhando o vizinho, se eu tenho várias coisas para fazer dentro da minha casa! O mercado está aí, e outras escolas virão e outras alunas também. O que faz a aluna ficar ou não é você mesma. E não temos que nos preocupar com as alunas que vão, e sim com aquelas que ficam. O momento da saída da aluna deveria ser um momento de reflexão, não de apontar o dedo para ela e ficar falando de mágoas, e sim de apontar o dedo para nós mesmas, professoras, e nos perguntar o que deu errado. Falta autocrítica e preparo na nossa área infelizmente.


Por: Naznin e Daniella Ogeda

Edição 02 (dezembro/janeiro 2011), Pág. 30

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Um comentário para “Entrevista: Jorge Sabongi”

  1. Izabela Akilaha disse:

    Muito boa a matéria,sou de Rio das ostras-interior do Rio de janeiro.Sou bailarina clássica e professora de dança do ventre, estudo a arte à 4 anos. Já tinha ouvido e visto algumas notícias sobre essa casa de chá-k.k mas não sabia o quão importante era.
    Gostaria muito de conhecé-la,e ter o prazer de participar das aulas.
    Parabéns ao professor e diretor Jorge sabongi que preza e leva à todos a oportunidade de conhecer a arte de um povo distante e surpriendentemente mágico.

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